Vocês estão enganados, muito enganados, eu diria, sobre o
machismo. Muito mesmo. Ele não é homem cantando mulher, estuprando, seguindo na
rua, agredindo física, verbal e psicologicamente. Machismo é uma cultura, um
condicionamento psicológico. É como se entre nós e nossos antepassados
existisse uma relação como a de Pavlov e seus cães (obrigada Jana, por me
permitir fazer essa referência), sem necessidade de apontar quem é quem. Nós,
todos, todas, todes, todxs, condicionados, desde o nascimento até a primeira
agressão que bebeu nas fontes turvas do patriarcado, a engolir em seco, crer
que é normal e achar que está certo tudo que sofremos, condicionados a esperar
como cães fiéis que toque a campainha e possamos então salivar, saboreando de
antemão o reconhecimento e os louros que um homem nos deu.
Palmas pra nós, que aprendemos tão bem e tão rápido a crer
que é sempre nossa culpa, que nós estamos sempre em falta e que eles, do alto
de sua ó- tão-maravilhosa-compreensão-superior-de-mundo, falam aquilo que
devemos ouvir, caladas, sentenciadas ao silêncio, engolindo opiniões e dores
como quem engole uma colherada cheia de óleo de rícino de bacalhau. Por falar
em bacalhau, aprendemos já cedo que todo produto que existir que extirpe nossos
odores são nossos melhores amigos, que nossos líquidos naturais são sujos,
fétidos, podres, nojentos. Não o deles. O deles se "engole", lambe,
bebe, lambuza. Ai de você se responder "cospe". Ai...
Somos sujas, putas, impuras, fonte de todo o pecado, já
ensinava Eva, dando o fruto proibido a Adão. A cobra é amiga de Eva, já sabemos
que não temos com quem contar, apenas a quem desdenhar e exibir nosso sucesso,
"inimigas"... Inimigas de quem? O que ganham para nos odiar? Onde
assina? Sei coisas terríveis a meu respeito.
Somos desde a maternidade divididas, segregadas, nunca
amigas, irmãs de luta. Na mesa do jantar, comemos com feijão que "em briga
de marido e mulher não se mete a colher". Mais tarde descobrimos que se
mete a faca, a bala, a mão... Mas jamais a colher. E com ela me calo, com a
boca de feijão.
Difícil crescer sem ouvir o que em nós muda, se pronuncia,
fica a desejar. Que bundão, que melão, que avião... Que ridícula, frígida, patética,
dentuça, gorducha. Magrela! Feiosa, fedida, fofoqueira. Oferecida, dada,
vagabunda, mal amada.
E sob olhos ferinos, felinos, analisados, observados,
julgados, sentenciados. Trava, viado, vagabunda, sapatona, caminhão,
afeminado...
Já crescidos, sabidos, horas vão, horas vêm... Chega a hora,
H, não quero, não posso, não sei, nunca fiz. Provocou, olha a roupa, se
ofereceu, mas com essa atitude, aposto que gostou, gozou. Gozar? Nunca! Horror,
pecado, pecaminoso, bestial, me toquei, não devia. Foi tão bom! Se reprima! Seu
próprio prazer é crime aqui.
Calejados, sofridos, passa a vida, nem vimos. E então, no
fim, nosso epitáfio: sobrevivi.
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