Hoje eu chorei várias vezes, por muitas razões, bem disconexas, eu diria. Mas todas com algo em comum.
Ser mulher é um ato militante. Mesmo uma mulher cis, branca, hetero. Mesmo rica. Ainda mais bonita.
Depois de muitos devaneios e sofrimentos pelas mulheres da minha família, minhas próprias frustrações e limitações incluídas, me dei essa página e esse texto de presente. Esse texto é um desabafo militante.
Chorei pela piora (a olhos vistos) de minha avó, discuti políticas públicas com enfoque na saúde com uma (ótima) enfermeira sanitarista, que também é minha mãe. E por fim, quando eu estava confidenciando a ela as minhas dores e desconfianças e inseguranças em relação ao curso que escolhi (que também é o curso de meu pai), ela me confidenciou uma dor enorme.
"Antes de querer ser médica (porque a irmã era médica e "muito inteligente, tão incrível") eu queria ser atriz e modelo, porque eu me achava bonita, competente e capaz pra isso. Mas não corri atrás".
Leiam esse não corri atrás como um "ninguém me apoiou no cerne familiar". Porque não correr atrás só é falta de vontade e dedicação quando seu meio lhe é favorável. Não correr atrás de algo que você nunca alcançaria na sua posição é quase desperdício de esforço.
- Pessoalmente, eu creio que mesmo que ela corresse atrás e, por fim, acabasse alcançando seu objetivo, não poderia prosseguir com o sonho. O mundo não é belo, ela seria taxada de puta.-
E aqui começa a parte militante do meu desabafo. Por que eu acho que minha mãe, que eu amo muito, conheço bem e a fundo sua moral e caráter, seria uma simples "puta" para, inclusive, a própria família? Porque é assim que se julgam as mulheres. Assim se subjugam as mulheres.
Um homem incompetente é apenas ruim de serviço, sem moral, sem caráter, corrupto, ladrão e - pasmem- filho da puta.
A mulher incompetente é a puta, supra referida mãe do homem que falhou. Isso se repete. Muda-se o vocábulo, permanece o julgamento de valores.
Quando eu tinha uns 12, 13 anos, pela primeira vez uma pessoa que nem o rosto vi me chamou de "gostosa". Foi uma sensação conflitante, já que à epoca eu tinha a pior auto-estima do planeta e, esse "elogio" mexeu com esse erro da matrix na minha mente. Mas eu não dei "moral" pro cara. Eu ignorei e segui andando. E aos 12, 13 anos, recebi, menos de 30 segundos depois do "gostosa" um igualmente alto e -incoerentemente- mais chocante e desesperador "vagabunda".
Me desesperei. Eu não tinha nem beijado na boca. Não tinha visto nenhum "homem" (pirralho de 12-13 anos) que eu gostava sem camisa. Não sabia o que implicava ser uma "vagabunda". E assim eu fui taxada, sem ter o direito (coragem?) de me defender. Porque um homem é sempre superior a mim. Não seja em intelecto, certamente o é em força.
Não muito tempo atrás, ouvi novamente um "gostosa". Dessa vez, mais empoderada, com mais auto-estima e voz social e um lugar lotado de pessoas que (se Deus quiser!) me defenderiam caso o meu agressor ousasse algo contra mim, o respondi. Com algumas ofensas de baixíssimo calão, verdade. Mas causei um olhar de espanto. Esse olhar eu não esqueço, porque foi o olhar do "isso nunca acontece".
A cantada de rua parece inofensiva. Parece. Exemplifico: já fui cantada na rua, sozinha com meu agressor, num domingo a tarde, numa rua totalmente deserta, com ele me seguindo enquanto falava coisas que não ouso reproduzir. Depois desse dia levei mais três para ter coragem de sair sem alguém comigo de novo. Eu tive medo. Real. Porque ele era forte, com braços fortes e, em meio aos absurdos, soltava "não aceito não como resposta". Não aceitar não, dentro do que ele dizia querer, se qualificaria como estupro. E ninguém saberia. Esse cara nunca seria achado. Eu sofreria sozinha a agressão. E ainda corria o risco de ouvir que o provoquei.
Tantos outros casos de ser seguida, fugir correndo de agressores que corriam atrás de mim ou, ainda, que me restava apenas rezar para eles não fazerem nada comigo porque eram 3 e eu só uma numa rua deserta, inúmeros. Todos com algo em comum: eu agredida, tendo que ser conivente com a agressão e com meu algoz.
Tanto tempo levei pra aceitar meu corpo, minhas escolhas, meus pêlos, meus desejos, minha identidade individual. Tudo porque uma mulher de verdade está longe de ser o que eu represento. E tem tantas outras atrás de mim.
Se ser uma mulher, hetero, cis, branca, de clásse média, bonita é militar, ser uma mulher trans, hetero, branca é mais. Trans, hetero, negra é mais. Trans, homo, branca é mais. Trans, homo, negra é mais. Eu milito na minha existência e ela é nada perto da militância de tantas outras mulheres, que não compartilham comigo o mesmo sexo biológico. Ou a binaridade de gênero.
Não sei se o texto é linear. Não sei se alguém o lerá. Não sei até onde está a minha coragem de assumir tudo que penso sem receber o rótulo impresso em papel reciclado e tinta de origem vegetal "FEMINISTA". Mas o desabafo tá aí. Pus pra fora. Me livrei. Amanhã é outro dia. Mais uma luta, várias derrotas, poucas vitórias. Mas as poucas que tenho já são mais que de muitas. E por isso eu sou grata. Axé.
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